Cultura e Tradição
Pão em forno de lenha
Cozer o pão em forno de lenha é uma das actividades que melhor representa o imaginário das Aldeias do Xisto. Ainda hoje existem inúmeros fornos comunitários que cumprem essa função. Desde que foi descoberta a alquimia de transformar cereais em pão que os fornos a lenha passaram a ser o altar onde se consumava esse valioso saber. E há toda uma liturgia própria: o amassar, o fintar (levedar), o tender (formar bolas de massa) e, claro, o benzer antes de ir para o forno: “Nosso Senhor te acrescente nesta hora e sempre, Nosso Senhor te acrescente para mim e para toda a gente”, pode-se dizer enquanto se faz uma cruz sobre a massa. Junto ao forno a azáfama é outra, alimentando-o de lenha para que fique á temperatura certa. Acender o forno e aquecê-lo devidamente também tem os seus truques e segredos. E enquanto tudo isto decorre outros habitantes juntam-se ao grupo contando as histórias mais antigas daquelas pedras que já aqueceram o sustento de muita gente. A conversa amena encurta a hora e meia de cozedura. Assim continuará a ser na nas Aldeias do Xisto, enquanto se souber casar a farinha com a água à força de braços, e enquanto o pão que alimenta o corpo andar de braço dado com o convívio que alimenta a alma. E que saborosos são ambos!
Bodo de Janeiro de Cima
Reza a lenda que, no século XVIII, a aldeia de Janeiro de Cima, no concelho do Fundão, foi salva de uma epidemia pela imagem de S. Sebastião. Ainda hoje, sempre na mesma data, a 20 de Janeiro, os janeirenses celebram essa protecção divina com uma festa que se tem mantido genuína e idêntica apesar do passar do tempo. No Bodo de Janeiro de Cima, oferecem-se merendas de pão e vinho para afastar a doença e celebrar a tradição. O Bodo de Janeiro de Cima é uma tradição antiga profundamente enraizada naquilo que é o património histórico dos seus habitantes: todos carregam os sacos com as merendas às costas ou à cabeça e em duas filas paralelas, alguns de velas acesas em punho, cantando e rezando, com o estandarte à frente e o santo atrás, dão uma volta à zona antiga da aldeia tal como os seus antepassados fizeram originalmente com a imagem, o que os livrou da peste. É uma festa histórica, que celebra a partilha, a união e a perseverança de uma população inteira que não esquece o património da sua memória colectiva.